sexta-feira, 12 de novembro de 2010

É só perda

Num outro dia qualquer eu faria rodeios, diria palavras doces para amenizar a sua dor, fingiria estar arrasado e que era difícil de suportar, mas nesta altura, no andar que as coisas tomaram, não há mais nada a sentir, porque pior que não amar é fingir amor. Com leveza me desprendo de tudo que já foi nosso, sem pensar no que ficou para trás, o que tivemos está além daqui, talvez numa outra dimensão, eternizado nessas fagulhas de tempo que se processam em cada olhar e que chamamos de estrelas.

Te dei mais do que havia em mim, fazendo cortar os poucos fios de vontade que nos ligavam e quando eles partiram-se era como se tudo tivesse ficado sem sentido, desnecessário, silencioso demais. Não planejei um fim, é como se ele sempre estivesse lá, a nossa espera. Nós tivemos um ponto de partida e também uma linha de chegada, mas no final ninguém ganhou, todos perderam e estranhamente nós bobos comemoramos, mentindo a cada dia como se tivesse valido a pena, porque seria duro demais admitir que nossa vida juntos foi uma perda de tempo.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Seus saltos

Fiquei a espera de um deslize seu, mas você sempre teimava em ser minimamente perfeita..

Recordo os rostos invejosos de todos que nos viam passar. Você sabia o que falar na hora exata, o momento certo de sorrir, era como se o mundo girasse ao seu redor. As coisas pareciam tão óbvias para você e tão complexas para mim, você descomplicava meu mundo, sozinho tudo parece indecifrável. Lembro da última vez que te vi, seus olhos falavam de pureza, me deu um beijo de café e saiu fazendo aquele barulho esquisito com seus saltos no meu carpete, eles anunciavam sempre quando você chegava ou partia.

A porta continua aberta, como se isso a fosse trazer de volta, mas o mundo é irreversível. Havia me restado apenas o lado vazio da cama, a calcinha no box do banheiro e sua revistinha da Avon.

Tentei acreditar que o tempo iria curar tudo, mas ele apenas muda as coisas de lugar, como um móvel velho arrastado para o canto da sala, querendo ou não ele permanece lá. Ando mentindo, falado que não sinto, mas no fundo sigo esperando, o barulho dos saltos que me acordavam no meio da noite e me tiravam meu melhor riso do rosto. Ainda não tive coragem de jogar a velha mobília fora.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Me olha Deus

Eu bato três vezes na madeira, dou gole para santo e as vezes até faço sinal da cruz, mas nunca tenho sorte, Deus jamais me olha, vai ver porque não deixo 10 % para a igreja, afinal essa parte é sempre para o garçom, nada mais justo.

Não sei a quanto tempo não acredito em Deus, só sei que é ele que a mais tempo não acredita em mim, preferia crer em algo, assim fica mais fácil a ter quem culpar, ou pedir ajuda, foda é saber que o fracassado é você e ninguém influênciou nisso.

Finji rir para parecer mais feliz, enganei a mim mesmo. Pensei que tudo ia ficar bem e que era só questão de tempo, doce ilusão, me sinto triste por saber que não tem ninguém lá em cima, que a vida é apenas esse filme sem nexo e eu um atorzinho de quinta.

Hoje eu bem que poderia acreditar em algo, se o dia continuar assim vou acabar rezando...'não quero dinheiro, não quero amor, só uma vida menos cretina' amém.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Crise dos 20

Estar puto.

Uma semana inteira da mais pura merda, minha casa fede a cigarro e pior que eu nem fumo, meus vizinhos berram na minha janela, gritando suas mentiras como se eu quisesse ouvi-los, mas eu não tenho mais humor, sou um vegetal, até uma alface de ontem tem mais a dizer do que eu. Os cachorros me olham, abanam o rabo e mijam nas minhas pernas. Nada vezes nada parece dar certo, sou tão importante quanto a sobra do esterco da vaca manca do meu terceiro avô.

Estou de saco cheio de bancar o pacifista, que se matem, que se danem, não vou ser mais o cara que pede calma, mas sim o que manda preparar as baionetas. Hoje eu quero ver sangue. Eu tento ver beleza onde não há, encontrar o que não existe, tocar o que não se tem e no fim é só a mesma porra enlatada do mercado da esquina.

Acordei cansado de acordar, me revoltei com minha própria vida, solto catarro contra o vento só para poder cuspir na minha própria cara ordinária, decidi ser revolucionário aos vinte, pois cansei, cansei de ser eu mesmo.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Mudar-se

O que quero hoje, já não é o mesmo que queria ontem e certezas me dizem que amanhã mudarei. Não sei desde quando me encontro assim, a tempos que acordo cada dia de um jeito, não me situo a nada, faço cada movimento de uma forma nova e diferente, aprendi a beleza da mutação, vejo com leveza as coisas que ando pensando, não deixo nada me aborrecer, comecei a ignorar os absurdos que tiravam meu sono, não os vi mais como absurdos, fiz descaso com o caos a minha volta, eu ainda o vejo, mas não o trago mais para perto, deixei meus dias ganharem uma doçura peculiar.

Cansei de gritar sem ninguém ouvir, aprendi a falar baixo e estranhamente aí sim as pessoas me deram ouvidos, olho nos olhos de quem me fala, sorrio para quem não conheço, sinto a vida inteira num segundo. Me apaixono em um dia, deixo de amar no outro, me permito e não mais me limito, vivo nessa liquidez de pensamentos, nessa fluência de emoções.

Este desapego, está falta de necessidade de buscar certezas tem me mantido vivo, aceitar cada manhã na sua singularidade, não julgando, querendo sol ou chuva, e sim querendo apenas o momento seguinte, isto me fez ver que erramos em acreditar que a coisas alheias a nós que nos fazem mal, quando na verdade a única forma capaz de machucar você é você mesmo.

Só se é influenciável, quando não se está forte o bastante, meço essa força pelo tamanho do meu sorriso, tenho andado alegre e digo, tudo surgiu de dentro para fora, nunca o contrário.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Vida de empresário

Consegui realizar meu sonho de ser empresário. Tornei-me um manager do ramo alimentício, pioneiro, o primeiro vendedor de sacolé da região. Não era o que eu imaginava de início, mas era melhor do que nada. A única coisa que me irrita é o fato de morrer socialmente, você deixa de ser uma pessoa quando começa a ser vendedor ambulante e se torna apenas “O tio do sacolé”, podemos encontrar a mesma pessoa durante todos os dias de nossas vidas, mas tenha certeza, ela nunca vai te chamar pelo nome, se sair um “Senhor” ou até “Tiozinho” já se sinta feliz, é o melhor que pode acontecer.

Os negócios não andam bem ultimamente, essa crise externa, o aumento do dólar e ainda por cima o fato de estar chegando inverno estão acabando com minhas projeções. Comecei a ver que vida de empresário não é nada fácil, logo logo vou ter que investir em infra estrutura, minha caixa de isopor está furada e a alça está arrebentando, não sei mais por quanto tempo vai aguentar, tive de diminuir o tamanho do sacolé e ainda por cima aumentar a quantidade de água, afinal a gente se vira como pode.

Os clientes andam reclamando, chegam a me hostilizar, eu sigo fingindo não dar bola, concordo e prometo melhorar, eles reclamam mas compram, deve ser o efeito do menino raquítico que contratei para me ajudar nas vendas, ele faz cara de coitadinho, encolhe a barriga, mostra as costelas e pimba, mais um cliente conquistado, todos se comovem a alguém com fome, o problema é dividir os lucros.

Certo dia um senhor entendeu minha jogada, e viu que o moleque que estava comigo era malandro, que o dinheiro era gasto com crack e não comida, tive de demitir o garoto, é complicado esse lance de ser patrão, desde então tenho tido de me virar sozinho. Quero ver quando descobrirem que não uso mais Tang e sim Kissuco do É o Tchan, estou me preparando para o pior.

Talvez mude de ramo, está na hora de respirar novos ares, tenho uns amigos faturando alto nos semáforos, é uma saída, o foda é que não sei fazer nenhum malabarismo, sou muito descoordenado para essas coisas, nasci para ser um homem de negócios, não para trabalhar no circo. O jeito vai ser vender sacolé no semáforo, vou arriscar, vai que a moda pega.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Sonho distante

É madrugada.

Estilhaços de sonho rasgam minha carne, acordo suado e tremendo, torno a fechar os olhos, abro novamente, é como se vivesse um sonho dentro de um sonho, sinto a angústia boba da falta de um carinho, queria alguém para abraçar agora, mas são 5 da manhã, nem meu cachorro abanaria o rabo a uma hora dessas.

Levanto, os olhos pesam, mas imploro por não dormir, tento ficar lúcido, vou no banheiro me debruço em frente a pia, me olho no espelho, não consigo me reconhecer, sou um estranho a mim mesmo, a sombra de quem já fora. Jogo água na cara, ela está tão fria que é como se canivetes estivessem cortando meu rosto, seco-me na toalha suja que ainda tem seu cheiro, sinto como se fosse hoje o aroma do perfume vagabundo que eu mesmo te dei, é como se pudesse tocá-la, para por um instante e eternizo esse momento na memória, .

Ligo a televisão, talvez uma bobagem ou outra para me distrair, assalto a geladeira, só a mesma porcaria enlatada de sempre, minha comida, minha vida, meus sentimentos, são todos artificiais. Penso longe, na saudade que faz aqui, parece tudo tão vazio sem você por perto. Seu sorriso preenchia todos os espaços, tudo soava melhor do que realmente era, nada me faltava ao ver seus lábios abertos de orelha a orelha. Pequenina, te colocava em meus braços e chamava de bebê, você me chamava de papai e éramos felizes de um jeito bobo que só nós entendíamos.

Desligo a televisão, pego a toalha de rosto no banheiro, me deito na cama, cheiro ela mais uma vez, aperto-a contra o peito e enfim consigo dormir, todo encolhido feito criança, criança que sou.