quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Crise dos 20

Estar puto.

Uma semana inteira da mais pura merda, minha casa fede a cigarro e pior que eu nem fumo, meus vizinhos berram na minha janela, gritando suas mentiras como se eu quisesse ouvi-los, mas eu não tenho mais humor, sou um vegetal, até uma alface de ontem tem mais a dizer do que eu. Os cachorros me olham, abanam o rabo e mijam nas minhas pernas. Nada vezes nada parece dar certo, sou tão importante quanto a sobra do esterco da vaca manca do meu terceiro avô.

Estou de saco cheio de bancar o pacifista, que se matem, que se danem, não vou ser mais o cara que pede calma, mas sim o que manda preparar as baionetas. Hoje eu quero ver sangue. Eu tento ver beleza onde não há, encontrar o que não existe, tocar o que não se tem e no fim é só a mesma porra enlatada do mercado da esquina.

Acordei cansado de acordar, me revoltei com minha própria vida, solto catarro contra o vento só para poder cuspir na minha própria cara ordinária, decidi ser revolucionário aos vinte, pois cansei, cansei de ser eu mesmo.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Mudar-se

O que quero hoje, já não é o mesmo que queria ontem e certezas me dizem que amanhã mudarei. Não sei desde quando me encontro assim, a tempos que acordo cada dia de um jeito, não me situo a nada, faço cada movimento de uma forma nova e diferente, aprendi a beleza da mutação, vejo com leveza as coisas que ando pensando, não deixo nada me aborrecer, comecei a ignorar os absurdos que tiravam meu sono, não os vi mais como absurdos, fiz descaso com o caos a minha volta, eu ainda o vejo, mas não o trago mais para perto, deixei meus dias ganharem uma doçura peculiar.

Cansei de gritar sem ninguém ouvir, aprendi a falar baixo e estranhamente aí sim as pessoas me deram ouvidos, olho nos olhos de quem me fala, sorrio para quem não conheço, sinto a vida inteira num segundo. Me apaixono em um dia, deixo de amar no outro, me permito e não mais me limito, vivo nessa liquidez de pensamentos, nessa fluência de emoções.

Este desapego, está falta de necessidade de buscar certezas tem me mantido vivo, aceitar cada manhã na sua singularidade, não julgando, querendo sol ou chuva, e sim querendo apenas o momento seguinte, isto me fez ver que erramos em acreditar que a coisas alheias a nós que nos fazem mal, quando na verdade a única forma capaz de machucar você é você mesmo.

Só se é influenciável, quando não se está forte o bastante, meço essa força pelo tamanho do meu sorriso, tenho andado alegre e digo, tudo surgiu de dentro para fora, nunca o contrário.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Vida de empresário

Consegui realizar meu sonho de ser empresário. Tornei-me um manager do ramo alimentício, pioneiro, o primeiro vendedor de sacolé da região. Não era o que eu imaginava de início, mas era melhor do que nada. A única coisa que me irrita é o fato de morrer socialmente, você deixa de ser uma pessoa quando começa a ser vendedor ambulante e se torna apenas “O tio do sacolé”, podemos encontrar a mesma pessoa durante todos os dias de nossas vidas, mas tenha certeza, ela nunca vai te chamar pelo nome, se sair um “Senhor” ou até “Tiozinho” já se sinta feliz, é o melhor que pode acontecer.

Os negócios não andam bem ultimamente, essa crise externa, o aumento do dólar e ainda por cima o fato de estar chegando inverno estão acabando com minhas projeções. Comecei a ver que vida de empresário não é nada fácil, logo logo vou ter que investir em infra estrutura, minha caixa de isopor está furada e a alça está arrebentando, não sei mais por quanto tempo vai aguentar, tive de diminuir o tamanho do sacolé e ainda por cima aumentar a quantidade de água, afinal a gente se vira como pode.

Os clientes andam reclamando, chegam a me hostilizar, eu sigo fingindo não dar bola, concordo e prometo melhorar, eles reclamam mas compram, deve ser o efeito do menino raquítico que contratei para me ajudar nas vendas, ele faz cara de coitadinho, encolhe a barriga, mostra as costelas e pimba, mais um cliente conquistado, todos se comovem a alguém com fome, o problema é dividir os lucros.

Certo dia um senhor entendeu minha jogada, e viu que o moleque que estava comigo era malandro, que o dinheiro era gasto com crack e não comida, tive de demitir o garoto, é complicado esse lance de ser patrão, desde então tenho tido de me virar sozinho. Quero ver quando descobrirem que não uso mais Tang e sim Kissuco do É o Tchan, estou me preparando para o pior.

Talvez mude de ramo, está na hora de respirar novos ares, tenho uns amigos faturando alto nos semáforos, é uma saída, o foda é que não sei fazer nenhum malabarismo, sou muito descoordenado para essas coisas, nasci para ser um homem de negócios, não para trabalhar no circo. O jeito vai ser vender sacolé no semáforo, vou arriscar, vai que a moda pega.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Sonho distante

É madrugada.

Estilhaços de sonho rasgam minha carne, acordo suado e tremendo, torno a fechar os olhos, abro novamente, é como se vivesse um sonho dentro de um sonho, sinto a angústia boba da falta de um carinho, queria alguém para abraçar agora, mas são 5 da manhã, nem meu cachorro abanaria o rabo a uma hora dessas.

Levanto, os olhos pesam, mas imploro por não dormir, tento ficar lúcido, vou no banheiro me debruço em frente a pia, me olho no espelho, não consigo me reconhecer, sou um estranho a mim mesmo, a sombra de quem já fora. Jogo água na cara, ela está tão fria que é como se canivetes estivessem cortando meu rosto, seco-me na toalha suja que ainda tem seu cheiro, sinto como se fosse hoje o aroma do perfume vagabundo que eu mesmo te dei, é como se pudesse tocá-la, para por um instante e eternizo esse momento na memória, .

Ligo a televisão, talvez uma bobagem ou outra para me distrair, assalto a geladeira, só a mesma porcaria enlatada de sempre, minha comida, minha vida, meus sentimentos, são todos artificiais. Penso longe, na saudade que faz aqui, parece tudo tão vazio sem você por perto. Seu sorriso preenchia todos os espaços, tudo soava melhor do que realmente era, nada me faltava ao ver seus lábios abertos de orelha a orelha. Pequenina, te colocava em meus braços e chamava de bebê, você me chamava de papai e éramos felizes de um jeito bobo que só nós entendíamos.

Desligo a televisão, pego a toalha de rosto no banheiro, me deito na cama, cheiro ela mais uma vez, aperto-a contra o peito e enfim consigo dormir, todo encolhido feito criança, criança que sou.