Recortes de cada detalhe de duas vidas, queimados em lábio e retina, só sobram as cinzas. Qualidades que não tenho, defeitos que sempre foram seus, não me desculpo por ser eu mesmo, te peço perdão por não ser como você. Querer teu abrigo, sussurrar teu nome em meus sonhos, rotina de pequenos momentos que preenchem todo o meu dia. As olheiras, a camisa amassada, ressaca e insônia, nunca saber se está acordado ou dormindo. Olhar em frente, negar o passado, comemorar pelo que nunca aconteceu. Amar tudo, até não sobrar mais nada, mais eu, mais erros.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Um Grande Favor
Dói fazer um favor. Pelo menos é isso que parece acontecer a quem faz alguma gentileza, é como se este ato de bondade custasse um naco da própria carne do cidadão. As pessoas fazem um lobby, todo um ritual de mártir para resolver, na maioria das vezes, as coisas mais simples, mas como bom ser humano que são adoram dificultar e mais ainda dramatizar os seus gestos, encarando está tarefa como a mais desgastante e dolorosa do universo, afinal seria muito difícil quando alguém lhe pede algo, apenas assentir, sorrir e dizer “sem problemas”. Porque fácil mesmo é dizer “puta merda”, “não sei se vai dar” e ”Tem que ser para hoje?”...isto se chama a Teoria da Dificultização do Problema Simplório, vou exemplificar para que vocês melhor absorvam. Você pede para um amigo resolver a tarefa de apertar um parafuso, simples assim, e ele diz “Bá cara tu sabe como são esses parafusos e tá faltando a polca, se não me engano essa rosca tá escorrida, não vai dar certo, ms vou tentar por ti, só por você meu grande amigo”, daí o sujeito vai lá pega a chave de fenda, faz uma cara de quem vai fazer um trabalho árduo e aperta de primeira o parafuso, enfim, neste momento além de ele estar com o ego inflado, cabe a você enaltecer tamanho feito ”Muito obrigado, sabia que tu não ia me deixar na mão, você é o cara, te devo uma campeão” ele virou praticamente o seu super herói. E todo esta história para boi dormir sendo que o canalha só apertou a porcaria do parafuso. Meu povo brasileiro, vamos ser menos atores e mais altruístas, vamos acabar com os parafusos que secam as nossas vidinhas, por favor.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Gotas amargas
No céu um dia sem sol, que lembram tantos dessa primavera vestida de inverno. Nas gotas amargas que caem sobre o telhado de zinco, ecoa o som dos sonhos, que se despedaçam junto as telhas. Na rua o vento recorta os rostos desconhecidos, que poderiam ser qualquer um de nós. E nestes pálidos dias de frio, nos aconchegamos sobre os trapos costurados um a um, aquecendo a alma para se manter vivo de espírito. Durante a noite atiramos em escolhas no escuro, mirando alvos invisíveis, tentando acertar nossa conta com o passado. Nestes instantes caberiam uma vida, onde enfim teríamos tempo de falar das pessoas que ninguém nota e ninguém vê, do senhor da padaria, do rapaz que pede dinheiro na esquina, na moça que varre o chão, dos milhares que nascem, dos milhões que morrem, despercebidos pelo próprio destino, que amam como amamos, que sentem como sentimos, mas não são vistos como merecem, porque tenha certeza elas sonharam como você sonhou. Nesta imperfeição de todos os caminhos cruzados, é fácil guardar o que se quer e excluir a vida ao redor, negando nosso próprio pertencimento ao mundo, confinados em ilhas, imersos em arrogância...no fim todos calam-se e as gotas de chuva seguem correndo, derretendo pelas bordas de cada vida, secando nas adversidades de cada jornada.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Desabafo
Vago nos pensamentos desertos que se quer tem significado, tirando-me o sono dos dias que se misturam as noites, nesta insônia sufocada que é meu vício. Sonho acordado em correr para longe, mas não sinto minhas pernas, paraplégico de alma, caio no chão morrendo aos poucos, definhando no vento das vaidades. Sou a soma de erros desiguais, que cometo buscando soluções para problemas que nem me aconteceram. Eu sofro por antecipação. Eu sofro de inanição. Eu morro por não viver.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
É só perda
Num outro dia qualquer eu faria rodeios, diria palavras doces para amenizar a sua dor, fingiria estar arrasado e que era difícil de suportar, mas nesta altura, no andar que as coisas tomaram, não há mais nada a sentir, porque pior que não amar é fingir amor. Com leveza me desprendo de tudo que já foi nosso, sem pensar no que ficou para trás, o que tivemos está além daqui, talvez numa outra dimensão, eternizado nessas fagulhas de tempo que se processam em cada olhar e que chamamos de estrelas.
Te dei mais do que havia em mim, fazendo cortar os poucos fios de vontade que nos ligavam e quando eles partiram-se era como se tudo tivesse ficado sem sentido, desnecessário, silencioso demais. Não planejei um fim, é como se ele sempre estivesse lá, a nossa espera. Nós tivemos um ponto de partida e também uma linha de chegada, mas no final ninguém ganhou, todos perderam e estranhamente nós bobos comemoramos, mentindo a cada dia como se tivesse valido a pena, porque seria duro demais admitir que nossa vida juntos foi uma perda de tempo.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Seus saltos
Fiquei a espera de um deslize seu, mas você sempre teimava em ser minimamente perfeita..
Recordo os rostos invejosos de todos que nos viam passar. Você sabia o que falar na hora exata, o momento certo de sorrir, era como se o mundo girasse ao seu redor. As coisas pareciam tão óbvias para você e tão complexas para mim, você descomplicava meu mundo, sozinho tudo parece indecifrável. Lembro da última vez que te vi, seus olhos falavam de pureza, me deu um beijo de café e saiu fazendo aquele barulho esquisito com seus saltos no meu carpete, eles anunciavam sempre quando você chegava ou partia.
A porta continua aberta, como se isso a fosse trazer de volta, mas o mundo é irreversível. Havia me restado apenas o lado vazio da cama, a calcinha no box do banheiro e sua revistinha da Avon.
Tentei acreditar que o tempo iria curar tudo, mas ele apenas muda as coisas de lugar, como um móvel velho arrastado para o canto da sala, querendo ou não ele permanece lá. Ando mentindo, falado que não sinto, mas no fundo sigo esperando, o barulho dos saltos que me acordavam no meio da noite e me tiravam meu melhor riso do rosto. Ainda não tive coragem de jogar a velha mobília fora.