quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Playlist

Certo dia estava lá Nietzsche, no café da manhã comendo um belo pedaço de apfelstrudel e ensopando seu velho bigodão no café preto e sem açucar como era custumeiro nas primeiras horas matutinas, quando começou a tilintar seus talheres sobre a mesa, fazendo aquele batuque cheio de swing e malemolência, e absorto neste momento de leveza e inspiração indagou para si mesmo "A vida sem música seria um erro", após isso deu mais uma garfada e saiu de fininho sem pagar a conta, afinal filósofo que se preze não tem um pila se quer no bolso.


Me uso desta máxima, e de toda musicalidade alemã de Nietzsche, que era nenhuma, para reinterar o poder espantoso da música. Nada melhor para definir o estado de espírito de um homem do que seu próprio tato musical. Nossa vida é uma playlist, e em cada momento que passamos adotamos para si a trilha que transmite a essência da história que estamos construindo.

É claro que há músicas que você vai levar para a vida toda, que não terão tempo exato ou hora marcada para serem ouvidas, porque da mesma forma que vamos ter rotinas diárias, também precisamos de nossa dose habitual de familiaridade, algo que escutamos e nos faça voltarmos para casa, que transmita o lugar da onde viemos e para onde vamos, algo que te identifique, que marque sua personalidade, aquilo que te faz único e eterniza o momento certo, da música certa.

O som vibra e cada vibração ecoa dentro de nossas mentes e é essa energia que te faz chorar, gritar, te faz feliz e te faz triste, te enche de completude e ao mesmo tempo te abre em vazio. As notas são a corda banda dos equilibristas, ou você dança como a música manda, ou ela vai te derrubar.

Seja balada ou batida, curta o seu som e não ligue para o que os outros vão dizer, não ache indispensável saber cantar o jingle que está na modinha, escute o que te faz bem, escute o que te faz você, afinal só assim estaremos em sintonia com nós mesmos, quando as músicas baterem na alma e ecoarem no nosso universo.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O mundo em nós

Acredito que sempre escolhi bem minhas amizades, se é que tive escolha ou apenas sorte, cada pessoa parece surgir no momento exato em minha vida, como se fosse algo sistemático, uma espécie de quebra cabeça que vai minimamente se encaixando com uma razão especial.

Você não precisa ficar horas conversando para sentir quando as coisas se conectam, podem ainda não ter aberto a boca, mas tem a certeza que daquele momento em diante, depois que seus olhos se cruzaram, as coisas jamais vão voltar a ser como eram.

Os amigos de verdade, mesmo sem perceber, fazem parte íntima de nosso desenvolvimento. Quanto maior a intensidade dos laços que ligam cada um, maior é a mudança que um proporciona ao outro, você muda quem está por perto, eles mudam você, é inevitável.

É fácil notar tudo o que somamos a nós que vieram de outras pessoas, dos mais simples hábitos a heranças que transformaram a nossa personalidade. Nós somos nós e mais um milhão de pessoas, nós somos o mundo montado em pedaços de mosaico, cada pessoa um recorte de milhares.

Quem você é se deve aos que caminharam ao seu lado, que mostraram que caminhos tortuosos e errantes são apenas um pouco do que define a existência humana, e como está falta de sentido pode ser suavizada pelo afago do abraço, ame aos amigos, porque você nada mais é que suas amizades.

sábado, 7 de agosto de 2010

Embriaguez

Sentado no bar, fitando a garçonete que aquela altura pareceria a mais linda das mortais, benefícios do álcool que faz do tosco belo e do belo divino. Acende o cigarro e mergulha no copo de uísque junto a mesa, pigarreia palavras por entre a fumaça e suplica aos céus para nunca mais ter um dia como aquele, sempre foi homem de fé, acreditava em Deus, era uma pena que Deus não acredita-se nele.

Tragou a fumaça mais uma vez, o cigarro ao final, apagou no próprio pulso, ele queria saber se a dor fisica poderia aliviar a tristeza que inundava seu peito, em vão, não que aquele dia tenha sido diferente dos outros, foi os mesmos 364 que haviam se seguido anteriormente, os dias continuavam iguais, era ele que havia mudado.

Despertou, cansou de vagar sem significados e decidiu reavaliar seus conceitos, durante toda sua vida acumulou coisas e agora via que estas coisas já não faziam sentido para ele, descontou sua dor nos copos, fez deles seus amigos e os convidou para dançar na balada da morte, incrível como nosso discernimento de verdade muda quando estamos perto do fim.

O médico lhe dera dias , ele tinha câncer, a morte a espreita, como se o esperasse na próxima esquina, desejou ter alguns anos de vida, queria ser finalmente feliz, fazer o que realmente gostava, mas era tarde demais, o sinal já estava fechado para mudanças, havia vivido uma vida vazia e de consolo apenas a certeza do fim e claro, a embriaguez.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Faca

Na estribeira da cama, sentado o homem de gorro cinza, amolando a velha faca que antes fora de seu pai, segue afiando-a com a mesma delicadeza do artista que pincela seu quadro. Com os olhos injados, não se sabe se de chorar ou de não dormir, percorre seu pulso.

Dentro de si um vazio, a agonia é tão grande que parece estar morrendo, mas ele não tem nada, aliás, ele não tem ninguém. Sente vontade de cortar-se, a lâmina fria, seu corpo quente, vai ver é isso, os opostos se atraem.


Compelido de tristeza diz não ver sentido em sua vida, fala sobre morte, caos e terror, em outros tempos diria que era louco, mas hoje tudo isso é real, basta olharmos o noticiário.
De relance viu seu rádio ao fundo do quarto, pensou que uma música poderia animá-lo, sintonizou a primeira estação que se fez ouvir, ele conhecia aquela letra era "Clarisse", pensou "que dia perfeito para se morrer", só poderia ter sido o dedo do demônio para sintonizar aquela porra.

Olhou pela janela, o sol bateu em seus rosto, os olhos cegaram, fazia dias que não virá a luz do sol, lá fora todos caminhavam, olhou a irís de cada um e todas estavam tão embotadas quanto a dele. Teve um momento de conforto, afinal não era só ele que estava achando tudo sem sentido, quem a tempos não brilha os olhos, sabe reconhecer a infelicidade de longe.

Ligou a televisor, apenas mais um caso de corrupção, lembrou das promessas, campanhas e sinais de futuro feliz, é realmente as coisas fugiram ao controle, ele também havia sido enganado, é fácil acreditar em promessas quando falam o que queremos ouvir. Só vemos a verdade por inteiro quando nossos corpos já estão pela metade.

Andou pelo quarto, a faca no criado mudo como se quizesse ver sangrar, aproximou-se, a empunhou e com o sopro de um vento cravou-a na imagem que jazia na parede, lá a foto de um velho governante de quatro dedos e barba por fazer, hoje ele não iria se matar, ele já havia descoberto o culpado de tudo isso.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Antes sóbrio...

Eram 5 da manhã, comi aquele velho hot dog de carrocinha, desses que protagonizam a melhor refeição após uma noite regada a álcool, sangue e suor. Obviamente ao terminar os lábios estavam lambuzados de molho, o que assinalava que tudo havia sido degustado da melhor forma possível e é claro sem a menor etiqueta, quando a fome é quase vital não nos apegamos a detalhes.

Segui desorientado pela calçada e vezes pela rua, afinal, os passos não são tão seguros após algumas doses de absinto, nunca tive o privilégio de sentir os efeitos alucinógenos da fada verde, se Van Gogh sabia como, deve ter morrido com estes segredos. Rumei pela estrada, o sino da igreja avisará, já eram 6 da manhã e eu ainda neste inferno de caminho para casa, cada passo mais cansado, cada passo mais lento, meu estomago pedia ajuda e eu suplicava por não regurgitar toda aquela merda.

O rosto dolorido, não é fácil ser esmurrado, mas por um lado me sentia bem, é preciso sofrer a força de um punho para se sentir vivo, o pior é que eu sabia que merecia, adorava pagar de vítima, mas dessa vez não ia colar, pelo menos paguei minha dívida, agi como idiota e tomei o devido troco.

Cheguei em casa “home sweet home”, fui logo tirando a roupa e me encaminhando para cama, minha garota já estava deitada, no lençol, meu lado quente esperando, dei nela um beijo dos nossos, era impossível disfarçar meu bafo, fechei os olhos e tudo girava como um carrocel. Estava quase pegando no sono, quando me fiz uma pergunta, teria minha mulher esperado apesar do horário e enrolada em seus cobertores aquecido o lugar onde seu velho iria dormir? Ou havia alguém antes de mim naquela mesma cama fazendo obscenidades com minha menina?

Naquela noite não preguei mais o olho, jamais toquei no assunto que havia me deixado bolado, um alcoólatra não olha para trás e eu não tinha moral para isso, como já diz o velho deitado “não mexa na merda, porque mesmo seca ela ainda fede” sabia, é o preço que se paga por algumas doses a mais.

Imagine eu que dizia que nunca iria parar com o álcool, como se não existisse coisa mais importante em minha vida que beber com os amigos, jogar um carteado e flertar com mulheres, hoje estou no A.A. Queria ter sido salvo por Deus, que um amigo tivesse me trazido para cá, infelizmente a luz da sobriedade veio da pior forma, enfim, antes sóbrio que corno.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Velhos rituais

Pensar nos assuntos que sempre se quis escrever, tentar, tentar e jámais rabiscar uma única frase, titubear entre as palavras como o menino que risca o alfabeto pela primeira vez e se perde nos sentidos de cada letra. Dificil é, admitir o que nos tira o sono, quando chega o momento em que temos de nos despir de todos os laços que enfeitam nossa insegurança e falar abertamente do que somos feitos, a pura essência do que nos tornamos.

Estranho e triste saber o que se quer falar, fantasiar como seria escrever o melhor texto que se pode imaginar, mas temer que as palavras não brotem como uma flor na primavera e sim se vão para longe como as folhas secas do outono. Frustrar-se ao entender que realmente não sabes expressar o que sente, não que faltem palavras e sim lhe falta talento, enxergar as limitações em cada traço de seu texto e sentir o desconforto de pensar que és mais um.

Há dias em que se o papel falasse seria mais simples e menos dolorido, ser infinitamente promissor e no fim dar menos do que se espera, isso nos amarga. Imaginava-se imbátivel com a caneta e o papel mas hoje escrever é desgastante, as idéias que mais o alegra são também as que mais o intriga.

E mesmo assim interessantemente segue os velhos ritos de escrita que tanto estima, debatendo-se no mar de palavras que criou para si, nos livros em que mergulhou ainda quando criança e que o tornaram se não melhor, ao menos mais feliz.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Gratificação

É evidente, todos gostam de ser reconhecidos, seja pelo que fizeram, pelo que são ou pelo que aparentam ser. De um modo ou de outro nós no fundo de nossas mentes estamos na busca de atenção, claro você pode não ser aquele ser obsecado por holofotes, mas isso não significa que ser gratificado é apenas supérfulo, ou sem importância, por mais blaze que você seja e isso verdade seja dita está na moda.

Hoje todos querem mostar que não ligam para nada e que são donos de seus próprios narizes, mas essa tentativa frustrada de independência utópica soa mais falso do que se resignar e aceitar nossa condição humana de procuradores de espelho, onde só queremos enxegar o reflexo dos que se dizem entendedores, o admirar tem seu papel, para aprender temos de nos moldar a partir do outro, mas você ter de ser quem não é, sorrir para quem não gosta e abraçar sem sentimento para ser gratificado e "aceito" nos preenche de vazio e nos leva a crer que mais do que essência, temos de ter aparência, é isso que buscamos?

Pense o mundo ao seu redor a partir de um prisma de lógica, por exemplo as vezes está calor, mas você não pode usar uma bermuda, afinal você está trabalhando e o regulamento interno não permite que ande com roupas "esporte", que mal há em andar de bermuda, você não irá desrespeitar a etiqueta, que etiqueta? para que serve isso, nos classificar, rotular, a cada lugares que vamos são saltos, brincos, maquiagens carregadas, gravatas, camisas abotoadas, enfim uma vida encomoda, a custo de que? fazer parte de algo, mas será que revogar nossa liberdade de ser faz sentido?

Abrimos mão de nosso bem estar para que sirvamos de modelo, para que outras pessoas façam o mesmo e que para todos façam igual, estar fora dos padrões para algumas pessoas é muito frustrante, afinal elas precisam de gratificação.

Hoje irei trabalhar de bermuda e chinelo, espero não ter de explicar tudo isso ao meu chefe.